A idosa de 62 anos resgatada de trabalho análogo à escravidão em condomínio de luxo no Eusébio segue morando com a família investigada. A permanência é temporária e foi permitida devido ao vínculo afetivo e à forte dependência que a trabalhadora mantém com os empregadores. Segundo a auditora-fiscal do Trabalho Maria Neuzeli Arantes, a vítima se recusou a sair da casa, afirmando que "morreria" caso se afastasse da família e que não deseja morar sozinha. "Seria muito mais fácil retirá-la, colocar em um abrigo e está feito o trabalho. Mas não é esse o nosso objetivo. Nosso objetivo é restaurar a vida dela e não pode ser assim tão rápido", disse. O desligamento imediato poderia representar um novo fator de vulnerabilidade. Enquanto permanecer na residência, a idosa não poderá voltar a trabalhar, conforme o Termo de Ajuste de Conduta. Apesar disso, a família chegou a perguntar aos profissionais quando a vítima poderia retornar às atividades.
A Secretaria dos Direitos Humanos do Ceará acompanhará a idosa com visitas contínuas e contatos virtuais. A técnica do Centro de Referência em Direitos Humanos, Emilie Kluwen, explicou que não há prazo para retirá-la da residência. "Estamos lidando com uma pessoa idosa que tem pouca ou nenhuma autonomia para a gestão dos seus recursos financeiros. Essa reconstrução da autonomia e dos vínculos com a família biológica é uma reparação que vai ser ofertada a ela", afirmou. A auditora Neuzeli relatou que a empregadora justificou a ausência de salário dizendo que a vítima "não é empregada, é da família, ia se ofender se a gente tratasse ela como empregada".
A mulher começou a trabalhar em 1971, aos sete anos, e permaneceu vinculada à mesma família por três gerações. Os direitos não pagos ultrapassam R$ 1,5 milhão. Os empregadores se comprometeram a pagar R$ 50 mil em verbas rescisórias, adquirir imóvel de no mínimo R$ 150 mil e custear contribuições previdenciárias até a aposentadoria.
