A chegada de cerca de 15 cargueiros aéreos mensais da China ao Ceará a partir de 2027, previstos para abastecer a construção do maior data center da América Latina na Zona de Processamento de Exportação do Complexo do Pecém, abre uma janela logística estratégica para o agronegócio e a indústria cearense. A Secretaria do Desenvolvimento Econômico (SDE) estrutura uma estratégia para ocupar o frete de retorno dessas aeronaves com produtos cearenses destinados ao mercado internacional. Sem planejamento, esses voos retornariam vazios à China, representando custo sem receita para os operadores. Com a estratégia, o estado pretende escoar melão, calçados, vestuário, flores, pescados finos, água de coco e castanhas com custo logístico significativamente menor do que o de um voo exclusivo de carga. "Os aviões vão vir lotados de equipamentos e podem voltar para a China vazios, ou podem voltar com produtos cearenses, a partir de negociações com compradores chineses", afirma o secretário da SDE, Fábio Feijó.

O modelo aproveita uma lógica econômica estrutural do frete aéreo internacional: aeronaves que chegam carregadas têm o custo da viagem de ida já coberto, tornando o preenchimento da capacidade ociosa no retorno mais acessível. Para o agronegócio, cujos produtos perecíveis como o melão enfrentam barreiras logísticas no frete aéreo convencional, a oportunidade pode ser transformadora. A operação está vinculada à Omnia Data Centers, parceira da ByteDance no projeto do data center, e depende da articulação entre a SDE, operadoras logísticas e o setor produtivo do interior do Ceará. O desafio central é garantir escala e regularidade na oferta dos produtos. Dos R$ 190 milhões já contratados pela Omnia nos primeiros meses de obra, 90% foram destinados a empresas cearenses, reforçando o compromisso com a economia local.

O Ceará é o maior produtor de melão do Brasil e referência nacional em calçados, frutas tropicais, camarão e castanha de caju. A estratégia de aproveitar o frete de retorno dos cargueiros tecnológicos integra um plano mais amplo de posicionar o estado como hub de exportação, combinando a ZPE do Pecém, os 18 cabos submarinos de fibra óptica e a chegada do campus do ITA para formação de mão de obra qualificada.