Uma mulher de 62 anos foi resgatada de situação de trabalho análogo à escravidão após atuar por mais de cinco décadas como empregada doméstica sem remuneração para uma mesma família no Ceará. A operação foi concluída na última quinta-feira (2) pela Auditoria-Fiscal do Trabalho, com apoio do Ministério Público do Trabalho e da Polícia Federal. A trabalhadora morava com a família em condomínio de luxo em Fortaleza, começou a trabalhar em 1971, quando tinha sete anos, e permaneceu vinculada à família até junho de 2026, sem salário regular, sem acesso à educação e em condição de dependência econômica. Ela acompanhou três gerações da mesma família: em 1982, foi transferida para a casa da filha da primeira empregadora, e em 2014, para outro imóvel da família, acumulando trabalho doméstico com cuidados de duas crianças. A jornada começava às 4h30 com o café da família. Nunca recebeu salário, vivendo apenas com R$ 600 do Bolsa Família, cujos saques eram intermediados pela empregadora.

A Auditoria-Fiscal estima que os direitos não pagos, incluindo salários, férias, 13º, FGTS, verbas rescisórias e horas extras, ultrapassam R$ 1,5 milhão. Os empregadores reconheceram vínculo empregatício apenas a partir de 2014 e firmaram Termo de Ajuste de Conduta com o MPT comprometendo-se a pagar R$ 50 mil em verbas rescisórias, adquirir um imóvel de no mínimo R$ 150 mil para a trabalhadora e custear contribuições previdenciárias até a aposentadoria. O acordo não quita integralmente os direitos da vítima, que poderá buscar indenizações na Justiça.

Para a Auditoria-Fiscal do Trabalho, a combinação de ausência de remuneração, dependência econômica e permanência compulsória no mesmo núcleo familiar desde a infância configura grave violação à dignidade humana e caracteriza trabalho em condições análogas à escravidão. Os nomes dos empregadores não foram divulgados.